Marcelo Spalding
Há uma corrente forte de influenciadores financeiros sugerindo que as pessoas não devem financiar imóvel nem mesmo comprar carro, e sim alugar. Há até aqueles mais ousados (seria essa a palavra?) sugerindo que vendam seus imóveis ou carros para investir o dinheiro e alugar os bens.
Eu sou absolutamente contra isso. Concordo que as pessoas devam fugir de dívidas ou empréstimos, a não ser em ultimíssimo caso e com um plano de sair dessa situação. Lembre-se que os primeiros escravos da nossa civilização eram os que deviam para os seus senhores ou governantes. Mas financiamento não é dívida. Pelo menos não se for bem feito.
A principal diferença do financiamento para a dívida ou o empréstimo é que financiamentos têm lastro em algum bem. Você adquire um imóvel, paga uma parte à vista e financia a outra parte. Então caso alguma coisa dê muito errado (você perca o emprego, tenha um problema de saúde, etc), é possível vender o imóvel, quitar o financiamento e ainda deve sobrar um valor.
Aí está, então, a primeira condição para o financiamento valer a pena: o bem adquirido precisa valer mais do que o valor financiado. Cuide, nesse sentido, ao financiar um percentual alto demais do imóvel ou aproveitar o financiamento para comprar móveis ou fazer reformas. Por vezes a conta final fica alta, o imóvel não se valoriza como a pessoa esperava e aí o valor para quitar o financiamento fica menor do que o valor do imóvel.
Isso pode acontecer em função de oscilações do mercado, claro. Aqui em Porto Alegre a enchente derrubou o valor do imóvel de algumas regiões. Sem falar o que a Covid fez com escritórios, por exemplo. Por isso o ideal é o financiamento não ocupar uma fatia grande demais da sua renda e nem você adquirir bens acima do seu padrão de vida.
Aqui temos que voltar à ideia central desse texto: um financiamento vale a pena se o bom financiado vale mais que o custo de quitar o financiamento. No caso de imóveis, em geral o bem se valoriza, então a conta fecha com mais facilidade. No caso de automóveis, ao contrário.
Então evite financiar uma parcela muito alta do automóvel, eu diria que metade é o bastante. Mesmo que você não possa comprar a melhor versão do carro ou o carro dos seus sonhos. Pelo menos não ainda, adiante, se você for organizado financeiramente e essa for sua prioridade, poderá.
Outro ponto de atenção – o segundo mais importante para valer a pena financiar um bem – é o juro cobrado. Evite financiamentos com juros acima de 2% ao mês. Há cálculos que de fato vale mais a pena alugar um carro do que comprar um carro totalmente financiado a juros de 3% ao mês. Porque aí você vai pagar tanto juro que no final terá “pago dois carros”. Mas juros abaixo disso são oportunidades razoáveis para você fazer, sim, um financiamento e começar a ter bens.
A vantagem de ter bens ao invés de alugá-los é que você poderá contar com eles no médio longo prazo (mesmo que o carro fique velhinho, é seu). No caso de problemas graves de saúde, financiamentos em geral são quitados, então também não perde seu bem (imagina você precisar deixar seu apartamento alugado ao descobrir que está com um câncer). Então fazendo bem as contas, financiar é sim mais vantajoso que alugar, especialmente imóveis. Mas em períodos de juros civilizados.
Outro tipo de financiamento muito comentado é o financiamento estudantil. Eu sou a pessoa que mais incentiva que se estude, eu mesmo fiz três graduações, MBA, mestrado, doutorado, pós-doutorado. Mas o financiamento estudantil não é um financiamento, é um empréstimo.
Lembra que a vantagem do financiamento é você ter um bem que dá lastro ao valor financiado? Se tiver um carro financiado e a grana apertar, é só vender o carro e quitar o financiamento. Mesma coisa a casa. Mas você não pode vender o que aprendeu na faculdade, vender seu cérebro, se vender.
Vi casos de estudantes financiando um curso privado de jornalismo que custava mais caro que a média salarial para jornalistas recém-formados. Claro que isso deu errado depois.
Não que não valha a pena fazer esse empréstimo para estudar, especialmente se for um financiamento de juros baixos subsidiado pelo governo. Educação ainda é o mais investimento. Mas aí entramos em outra discussão importante: como diferenciar gasto de investimento?