Marcelo Spalding
A Oração da Serenidade é uma das orações mais profundas que existem: “Concedei-me, Senhor, a serenidade para aceitar as coisas que não posso modificar, a coragem para modificar aquelas que posso e a sabedoria para distinguir uma das outras.”
A força dessa reflexão está na última frase: sabedoria para diferenciar uma das outras. Como saber o que é passível de mudarmos e o que não é?
Com relação ao binômio gasto X investimento é a mesma coisa. Como saber se a mensalidade de uma academia é gasto ou investimento?
Mas vamos começar pela definição. Gastos são aquelas despesas que contraímos sem perspectiva de retorno daquele valor. Comprar comida é um gasto, gasolina é um gasto, luz, água e condomínio são gastos. Já investimento é aquela despesa que você faz buscando obter um retorno maior depois. Comprar ações de uma empresa é um investimento, trocar um carro que dá muito gasto com oficina por outro mais novo é um tipo de investimento, comprar placas solares pode ser um investimento.
O problema é que fora os casos óbvios (como compra de ações ou títulos do governo), muitas vezes os ganhos não são diretos e por vezes sequer mensuráveis. Por exemplo, eu trabalho o dia todo de casa e usando o notebook. Trocar meu notebook por outro melhor é gasto ou investimento? Quanto eu vou ganhar a mais se meu notebook for mais rápido? E comprar uma cadeira nova?
Mais ainda: comprar roupas de grife para impressionar os clientes é gasto ou investimento? E trocar de carro? E frequentar o salão de beleza mais caro da cidade?
Já tá complicado? Vamos complicar um pouco mais: e quando o ganho não for financeiro, e sim emocional? Por exemplo, despesas com terapia ou academia de ginástica são gastos ou investimentos?
Voltamos, assim, ao início desse texto, pedindo licença para parodiar a oração: “Concedei-me, Senhor, a serenidade para cortar os gastos que posso cortar, a coragem para fazer os investimentos que posso e a sabedoria para distinguir um dos outros.”
O grande risco, aqui, são as pessoas que gastam além do que poderiam com a justificativa de estarem investindo. De fato eu ter um computador melhor é bom para o trabalho, uma roupa nova ajuda, um carro que não quebre no meio da estrada também. Mas isso não significa comprar um computador novo todo ano, gastar metade do salário em roupas de grife para impressionar ou financiar a perder de vista um carrão importado. Sabedoria é a palavra chave, encontrar o equilíbrio. E, acima de tudo, fazer contas.
Uma pessoa com organização financeira saberá perceber mais claramente se suas despesas são gastos ou investimentos. Olhando anotações de meses e anos anteriores, você descobrirá se aquela troca de carro realmente diminuiu a despesa de mecânica (e se uma compensou a outra). Se adquirir placas solares realmente diminuiu a conta da luz. Se o novo notebook aumentou seu ganho depois de X meses – e em quanto.
De qualquer forma, lembre-se que o mais importante é seu sono, sua paz. Mesmo que haja investimentos aparentemente imperdíveis, opere dentro do seu limite e do seu orçamento, procure evitar dívidas e empréstimos, e seja cuidadoso com financiamentos.